terça-feira, 23 de junho de 2009

Conceito Sem Jeito

Pequim, setembro de 2004

Eu sei, não tem jeito, toda vez em que chego não vejo e percebo, tenho logo que ver o que pode ser feito e o que no lugar em que estou não é perfeito. As idéias são outras, os conceitos variam, sequer se associam. Revejo assim tudo o que vejo e me vem, procuro entender tim-tim por tim-tim. Uma outra idéia, uma nova cultura, já não posso dizer que somos todos de uma mesma alcatéia. Não falo da fé, dos valores humanos, das coisas do alto, essas não mudam, são valores perenes, umas vezes à vistas, outras debaixo do pano. Falo aqui de básicos conceitos, de nossos trejeitos, de coisas que achava que eram do mundo, do homem e mulher, mas às vezes são minhas, só nossas, ninguém mais as quer.

Quando cheguei a São Paulo, muitos anos atrás, descobri que seus habitantes não sabiam e nem conheciam algo tão simples e singelo.

Para os paulistanos e sua cidade o tal do "retorno" não fazia parte da realidade. Nem vou falar do balão, rotatória, isso lá não existe, mas é outra história. Para voltar de um destino em São Paulo é preciso um outro caminho, uma outra abordagem. Retornar, voltar, cento e oitenta graus rodar, é algo que não existia nesta cidade que hoje chamo de lar. Até que um dia, no final da Paulista, bem na frente da Igreja, um retorno surgiu. Ali, dois mil metros depois de avenida cruzar, a partir desse dia você pode voltar, o volante girar e simplesmente re-tor-nar. Você inverte o sentido e pro Paraíso pode então prosseguir, mas não pense que lá também o retorno vão lhe permitir. Nem pense em voltar, vá pro Jabaquara, Ipiranga, ABC, quem sabe lá em Santos exista um retorno a esperar por você.

Aqui na China fiquei boquiaberto. Descobrir que algo tão básico, simples, que pra mim é o certo, por aqui não existe, não surgiu, não se ouviu. No Brasil está em todo lugar, na fazenda, na praça, no banco e no mar. Na cidade, no carro, na loja e no pranto, até mesmo a fazem pra venerar o seu santo. Do Oiapoque ao Chuí não existe brasileiro que não saiba, eu nunca vi. Os índios que talvez tenham sido quem nos fez a apostila, ou foram então as formigas que a nós em FILA, ensinaram a ficar. Outro dia em Pequim eu estava, no metrô esperava, minha vez de comprar o bilhete, pacientemente aguardava.

Sempre um chinês, minha pança comia, meu lugar eu perdia, eu olhava pros lados, e me irritava, simplesmente não tinha um chinês que em fila ficava. Essa palavra é algo que em mandarim não existe, a nação mais antiga, das civilizações, a primeira, não conhecem a fila, não sabem ficar um na frente do outro, sua vez esperar.

A TV é outra coisa, que pra mim era boa. Muitas vezes ficamos assim meio à-toa e ela ajuda o tempo a passar, os minutos queimar. Claro que sempre tivemos e sei-lá, talvez sempre tenhamos a medíocre reclame, o baixo programa, o apelo por grana. Aqui é estranho. São 70 canais, 35 do Estado e 33 do Município e sobram dois mais. Um a CNN outro a CNBC, assistíveis, talvez. Mas não há quem agüente toda noite, a noticia da manhã do outro lado do mundo ouvir, os Estados Unidos ter de aplaudir. Eu posso dizer que tentei, zapeei dia e noite procurei nos canais e não encontrei. Nem sinal da Escrava, a Isaura não vi, Clone algum encontrei, Esperança jamais, Terra Nostra aqui não. Acho que é tudo ufanismo essa história de que nossas novelas globais passam em todos canais e onde estão é modismo. Nem aqui, nem na China, ou melhor, nem aqui na China, nem em Bengala, Odete Roitman não vi, nem sinal de Salomão Ayala. Na Argentina eu vi, uma vez, mas não vale, era a Globo Internacional, um seleto canal. O que é bem verdade é que Chiquititas e Chaves, Marias do Bario, e outras "chicanos" estão estes sim em todo globo.

Sem TV e sem fila, sem nem mesmo falar, resolvi dar um tempo, resolvi viajar. Fui então pra Oeste, estação de trem de Pequim ou Beijing. Até então para mim "tudo igual" não passava de um caminhão com japoneses em cima. Hoje eu sei, não existe no mundo, nada igual, tão igual, quanto um trem com chineses até o fundo. A estação gigantesca, a maior que já vi. Até bem arrumada pro tanto que fica lotada. Eu, no trem, espécie única, bendito o fruto, diferente de tudo ao redor. Nos 20 vagões o único latino, o único branco, o único americano, o único ocidental era eu. Depois de encontrar meu leito e me assentar, este novo território resolvi explorar. Fui andando, caminhando, vagão por vagão, e tudo o que via era a mesma visão.

Chinês sentadinho, com a perna cruzada, um copo de água morninho na mão. Bebia um tanto, falava outro tanto, o espaço ocupava, mas o trem não lotava. Digo, estava lotado, porém não apertava. Fui voltar pro meu leito e não teve jeito, era tudo igual. Todo lado que eu olhava era a mesma imagem, um chinês, um miojo, um risinho de lado, parecia miragem. Um miojo amarelo, um vermelho, um cheiro de cor, de todo sabor. De vagão em vagão meu lugar eu buscava, só miojo e chinês eu avistava. Um hora depois ou talvez até mais consegui pro meu canto voltar e parar. Fiquei lá quietinho até o fim do caminho.

Foram 13 horas de trem, dez das quais eu não vi. Eu dormi.

No dia seguinte em Siam nós chegamos. O que em Pequim eu não vi nem achei, fui encontrar em Siam, lá a China que pensei eu avistei.

Aquele pais que eu esperava, todo louco, confuso, sem ordem, nem nada. Uma estação apertada, construções, chuva, lama. Comércio na rua, bicicletas e bichos, de um lado o povo, de outro o lixo. Um corredor estreito, sujo, confuso me levou para a rua, mais confusa e imunda, ainda mais com a chuva, com a água que um rio formava onde antes só carros e bicicletas era o que circulava. Foi difícil mas lá no fundo, um táxi imundo consegui eu tomar, uma rua arrumada, outra mais e outra ainda, e quando vi era outra a cidade que eu estava.

Shopping Centers aos montes, restaurantes de todas as fontes, do Brasil ao Islã, tudo estava em Siam. Louis Vuitton, Mont Blanc, Dior, Giorgio Armani, todo mundo ali. De um lado a riqueza, o luxo, a vitória, do outro a pobreza, a cultura e a história.

Em um ônibus entrei mas pro destino eu não ia, parado estava, sem mover sem energia. Um chinês do meus lado se levantava, o outro da frente e o de trás também foi, quando olhei da janela, eu vi a mazela, os passageiros que haviam saído, estavam tentando, empurrando e forçando, fazer com que o ônibus com a força do homem se pusesse a caminho e com o motor funcionando. Uma hora depois em outra cidade eu cheguei, nuvens negras no céu, uma aguaceira na terra, mesmo assim lá fui eu, o mausoléu conheci. Um tal de imperador, dois mil anos atrás, foi ali enterrado. Anos antes o próprio, que chamam de Qim, mandou construir sua tumba pro seu fim.

Era o seu mausoléu, sua corte no céu. Foi talvez o primeiro, o mais importante, o início da China, o que uniu o restante. Os padrões definiu, a linguagem, a imagem, a nação construiu. E depois que partiu, sozinho não foi, consigo levou aqueles um dia seu lar construiu. Setecentos mil homens construíram o castelo, e ali foram mortos, cerrados, largados. Milhares de moças e mulheres sem filho foram também enterradas e com ele morar, na esperança de uma corte fundar. Sabe-se lá o que por ele esperava depois dessa vida, melhor não arriscar e levar todo o mundo. Um exército de homens, de arqueiros, guerreiros, cavalos e armas foi então construído. Um batalhão de artistas replicou cada homem, cada rosto e feição, no tamanho real, com roupas e tal, de carne não eram, de barro os moldaram, de terracota os criaram.

Nos anos setenta, um camponês atrás de água um um poço furava. A sede aumentou, não deu, não a matou, ao invés da água pura, uma estátua achou. E mais uma e mais outra encontrou. Foram centenas, milhares. Dois mil anos de pé, guardando o senhor, sem cair, sem ruir. No começo do século, ou no fim do passado, outro buraco, outro tesouro foi encontrado. Carruagens, cavalos, soldados e nobres, o tamanho a metade, o valor mais que o dobro, era tudo de ouro, acredite é verdade. É algo assombroso, e dá até medo de tão maravilhoso. Está tudo ali, bem no fundo, tudo ali bem no meio, do meio, do centro do mundo.

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